Das coisas que ganhei pelo caminho

Ganhei uma pantera cor-de-rosa de plástico, achada no chão da Piazza San Pedro, no Vaticano, que guardei até minha recente mudança. Ganhei uma rosa de um desconhecido em um Valentine’s Day, em Veneza. Ganhei também um convite para jantar de um lituano em outro Valentine’s Day, desta vez em Londres, mas preferi sair pra dançar com a amiga brasileira numa festa chamada I bet that you look good on the dance floor. Ganhei uma magnífica dor muscular nas pernas após quatro dias de trilha inca, mas ganhei o presente que é ver o dia nascendo e o sol iluminando as ruínas de Machu Picchu sem a massa de turistas por perto. Ganhei uma versão em inglês com dedicatória fofa de O amor nos tempos do cólera, esquecida de propósito na minha estante por alguém que conheci nas cálidas ruas de Cartagena. Ganho sempre alguns quilos quando vou ao Pará e à Bahia, mas também aumentei de peso depois de um fim de semana natureba-orgânico num ashram. Ganhei uma amiga depois de uma viagem à Chapada dos Veadeiros e uma amiga de infância das minhas idas à Belém. Ganhei um livro de um Hare Krishna na principal rua de Edimburgo, depois de recusar a oferta de comprar o cd da sua banda de Krishna Core mas lhe doar uma libra. Porque viagem é um investimento: gastamos dinheiro, mas ganhamos lembranças e experiências. E esta é a única coisa que alguém jamais vai poder tirar de mim.

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Comer, rezar e amar (Elizabeth Gilbert)

Sim, eu tinha preconceito com esse livro, que me cheirava a auto-ajuda. E sim, eu li e gostei, e ele às vezes é auto-ajuda de meia tigela mesmo, do tipo “você tem que buscar a sua verdade para ser realmente feliz”. Mas o livro é redondo e difícil de largar, com descrições muito legais do cotidiano num ashram e como é bom dar um f*da-se à tudo e todos, juntar suas coisas e ir pra Itália, simplesmente porque você quer e pronto. Um dia faço isso também, senão não morro realizada. E sim, essa auto-ajuda me ajudou: chega uma hora que você casou, teve filhos, comprou uma casa, estudou, conquistou uma carreira de sucesso, mas quer fazer aquilo que você e simplesmente você tem vontade. Como estudar italiano – um idioma que não serve para muita coisa mas é lindo – e se jogar numa das melhores culinárias do mundo (bom, isso eu sempre fiz). Tem também o  cliché, de se apaixonar pela ginga de um brasileiro, mas eu relevo (sem acento. Morte à reforma ortográfica). Que me perdoem meus ídolos Benedetti, Amos Oz e Ian McEwan, mas se eu fosse escrever um livro, seria mais ou menos como Comer, Rezar e Amar.

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Literatura para viagem

Não estou falando de guias de viagem, com indicações de “onde comer” “onde dormir”, “o que fazer”, mas de livros que se passem em lugares que te fazem decidir a ir para lá. Como quando eu assisti Diários de motocicleta e eu quis vivenciar toda a estupefação que eu vi no  rosto de Gael Garcia Bernal/Che quando chegou a Machu Picchu. Mas o assunto aqui são livros e não filmes, que sejam relatos de viagem ou simplesmente contenham tantas descrições de um lugar que te dão uma vontade irresistível de ir para lá. Nasce um novo tag para este blog.

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On the Road (Jack Kerouac) e O Grande Bazar Ferroviário (Paul Theroux)

Confesso que não gosto de dois grandes ícones mochileiros, daqueles adorados pelos twentysomething de países desenvolvidos que tem tempo para viajar:  On the Road, de Jack Kerouac e O grande bazar ferroviário, de Louis Theroux. Pode ser simplesmente por conta do tipo de literatura – eu gosto de descrições minuciosas, de um maior detalhamento emocional dos personagens – e estes livros têm cenas e diálogos rápidos das ações dos personagens. Tenho a impressão de que eles fazem bastante coisa, mas nunca param para pensar no que fazem.

O livro de Theroux é um relato de suas viagens de trem da Europa até a Ásia e, para um cara tão viajado, ele sofre de um defeito fatal: o etnocentrismo. Porque como um cara que se propõe a passar meses viajando pela Ásia se opõe ao modo místico como os indianos explicam o mundo?

On the Road tem o seu DNA beatnik e, teoricamente, Kerouac escrevia sem parar num rolo de papel de fax, desenvolvendo a estória de modo linear, sem cortes e sem edições. Eu sinceramente acho que um editor cairia bem e não terminei de ler o livro. Mas já cruzei com muitos wannabes Dean Moriarty em albergues por aí.

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Das coisas que perdi pelo caminho

Voltando a este blog que já tinha passado por sua extrema-unção. Mas o tema viagem, porém, está cada vez mais vivo na minha cabeça.

 

Post inspirado neste: http://viajeaqui.abril.com.br/blog/133918_comentarios.shtml?7536578

Já perdi um avião depois de uma noite (e começo de manhã) de festa em Belo Horizonte. Perdi uma câmera em Machu Picchu, no final da viagem, e, consequentemente, todas as fotos. Mas não perdi nenhuma memória da viagem. Perdi um anel na rodoviária de Salta, argentina, que até agora está me doendo. Perdi o medo de viajar sozinha desde o primeiro dia em La Paz mas até agora não perdi a vergonha de jantar sozinha num restaurante legal. Perdi a cabeça por um canadense e até agora não encontrei – deve estar junto com a câmera ou o anel. Perdi a paciência com prestadores de serviço no Uruguai, até entender que aquele era o jeito deles de lidar com as coisas e a gente viaja é pra ver o jeito diferente das pessoas. Perdi a inocência de pensar que alguém nascida e criada no Rio de Janeiro jamais poderia ser roubada numa cidadezinha de 10 mil habitantes na Europa depois de isto acontecer. Perdi dois quilos porque me desaconselhavam a sair no centro de Bogotá à noite para jantar, e então ia dormir com fome. Perdi o sono com medo de perder vários vôos. Provavelmente perdi uma parte do meu fígado neste último verão no Rio de Janeiro, que é a minha casa e nunca foi tão minha. Perdi a fala diante do Fórum Romano, das Cataratas do Iguaçu, do pôr-do-sol do Posto Nove ontem. Perdi o medo e ganhei verdadeira fascinação pelo desconhecido deste mundo. E não perco nunca a vontade de viajar.

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O país é repleto de ruínas, porém duas se destacam: a mítica cidade de Tróia e a bem-conservada Efesus. Da primeira, pouco restou da grandiosidade retratada em Ilíada. Tróia foram nove cidades, sucessivamente conquistadas, destruídas e reconstruídas, uma por cima da outra. Hoje em dia há pouco que se ver: ainda há 65% da cidade para ser escavada, mas os arqueólogos não têm conhecimento sobre o que ainda está ali e terão que destruir as camadas superiores se quiserem chegar nas inferiores. Já Efesus é uma viagem ao antigo Império Romano. As ruínas da cidade estão em excelente estado de conservação e contam até com um banheiro público, que rende fotos impagáveis, e um bordel.  

Efesus

Mas a Turquia não é só ruínas. Existe uma natureza singular e exuberante pronta para ser explorada pelo viajante. Sakilikent Gorge é uma montanha que partiu no meio devido a um terremoto e hoje e possível caminhar em seu interior, que por vezes não chega a medir 10 metros de distância entre um lado e outro. E não se esqueça, estamos no Mediterrâneo, que conta com dezenas de praias com paisagens de propaganda de cartão de crédito. E se você cansar de hotéis e albergues não se preocupe: casas na árvore são acomodações bastante comuns. O Kadir’s, albergue onde fiquei em Olympos, não só tinha acomodações à lá Tarzan como até uma boate nas suas dependências. Um conselho: escolha o quarto mais longe possível da boate, casas na árvore têm o seu charme, mas não oferecem um bom isolamento acústico. E peça um Cherry Ribe, simplesmente o melhor coquetel que já experimentei na vida.

A paisagem mais espetacular da Turquia, porém, é a da Capadocia, com suas formações rochosas conhecidas como chaminés de fadas e cavernas construídas para moradia, quentes no inverno e frescas no verão. Quando o cristianismo ainda era uma religião subversiva, há dois milênios atrás, os cristãos construíram cidades subterrâneas para se esconder da perseguição, algumas com até 100 capelas cujos afrescos você pode ver até hoje. É possível explorar a paisagem da religião à pé, de bicicleta, de scooter e à cavalo. Mas eu escolhi voar de balão. Tive que acordar às 6h da manhã, custou o equivalente a um mês de aluguel, mas foi uma experiência extraordinária. Ao contrário do que imaginava, não senti medo ou adrenalina de voar a mil metros de altura: a sensação de paz e tranqüilidade é tão grande que é possível escutar os cachorros latindo e as pessoas conversando em terra. dsc02279.jpg

No mesmo dia em que voei de balão tive outra experiência autenticamente turca: o hamman. Essencial para a purificação semanal na religião muçulmana, os hammans são os famosos banhos turcos. Sumptuosos e elegantes, estes banhos encerram vários significados sociais. O mais importante é o de servir de ponto de encontro: é neles que as mulheres costumam observar e “capturar” as futuras esposas dos seus filhos. Além do significado sócio-cultural, os hammans trazem igualmente importantes benefícios terapêuticos.

Mediterrâneo

Outra experiência altamente recomendável é a culinária turca. Menemen, espécie de ovos mexidos com diversos ingredientes, era fundamental no café da manhã. A pizza turca tradicional se chama pide até o kebab, velho conhecido de quem viaja para a Europa com pouco dinheiro, é diferente na sua terra natal. Kebab que se preza é no espeto. Outra  instituição turca é o chá de maçã, oferecido por onze entre dez vendedores que você vai encontrar. Simpáticos e espertíssimos, eles vão te chamar de meu amigo, comentar sobre futebol e te fazer comprar coisas pela metade do preço inicial oferecido, mas ainda assim você vai achar que foi enganado. Aliás, nenhum artigo à venda na Turquia já vem com o preço na peça.  Pergunte e se prepare para negociar. Esteja pronto para ser abordado em qualquer lugar por vendedores, taxistas, guias, garçons e pessoas de profissão meio indefinida na rua. Se você for mulher, redobre sua paciência – além de te oferecerem produtos e serviços você será olhada como um pedaço de carne no açougue. O assédio é menos comum em cidades litorâneas, acostumadas a hordas de europeus, mas incomoda mesmo em lugares como Istambul. Leve seu Ipod e ignore os vendedores te chamando, mas não perca a oportunidade de conhecer esse país de surpresas e contrastes que é a Turquia. 

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De Ipod na Turquia

dsc02301.jpgpor Luciana Guilliod Eu nunca havia bebido álcool às 8h da manhã, até aquele dia de maio de 2006. Como também nunca havia sobrevoado num balão de ar quente a paisagem espetacular da Capadócia, na região central da Turquia, achei que valeria a pena aceitar a taça de champanhe oferecida para comemorar. Essa foi apenas uma das surpresas que este país me trouxe.  

Cheguei na Turquia às duas horas da manhã. Às sete da madruga do dia seguinte, estava firme e forte, de mochila nas costas, pronta para encarar o Fez Bus, um ônibus hop on hop off (ou seja, você pode parar a qualquer momento da viagem e pegar o próximo ônibus no mesmo ponto, dois dias depois) que leva uma semana para fazer uma volta completa no país. O Fez Bus foi a solução perfeita para uma menina viajando sozinha em um país muçulmano – não só fiz amigos mas evitei, até certo ponto, o assédio dos turcos.

dsc02160.jpgSó tinha ouvido falar de Gallipoli, o primeiro lugar que visitei, por causa do filme do Mel Gibson. O lugar foi palco de uma importante batalha na primeira guerra mundial entre turcos, australianos e neozelandeses e até hoje é local de peregrinação dessas nacionalidades. Para uma brasileira sem grande interesse na Primeira Guerra Mundial, valeu matar a curiosidade de entrar numa trincheira. Este foi só mais um capítulo na conturbada e rica história turca. O país, que hoje é uma República e um estado secular, abrigou a primeira cidade do mundo (Catalhoyuk, por volta de 6500 AC). A antiga cidade de Bizâncio foi rebatizada de Constantinopla pelo imperador grego Constantino em 330 AC, se tornou a capital do Império Romano do Oriente e o coração do Império Bizantino por mil anos. Em 1453 a cidade foi conquistada pelos Otomanos e renomeada como Istambul. A Turquia obteve sua independência após a Primeira Guerra Mundial sob a liderança de Mustafa Kemal, mais conhecido como Atatürk e alvo de homenagens no país inteiro. Atatürk modernizou o país, proclamando uma república e separando Estado e Religião.

 

(continua amanhã)

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